quarta-feira, 7 de abril de 2010

PARALELISMO SINTÁTICO E SEMÂNTICO

Por Thaís Nicoleti

"A ascensão do Brasil como um gigante econômico é um dos maiores temas do nosso tempo. Não está somente redefinindo a América Latina, mas também a economia do mundo inteiro."



Algumas construções sintáticas, em geral as que envolvem os conectivos de adição e certas estruturas correlativas, requerem, a bem da clareza, a organização paralelística. Do ponto de vista semântico, uma construção como "Gosto de frutas e de livros" causaria estranheza, embora, do ponto de vista sintático, esteja perfeita. Estamos diante de um caso de quebra do paralelismo semântico, que se caracteriza pela quebra da expectativa do leitor.

Machado de Assis, entre outros escritores, explorou os efeitos estéticos desse tipo de defeito de construção. Está no seu "D. Casmurro" a formulação "um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu", em que criou um delicioso efeito de estilo.

A falta de paralelismo semântico talvez seja mais facilmente percebida que a falta de paralelismo sintático. Esta ocorre quando uma estrutura irregular ocupa o lugar de uma estrutura repetitiva, também quebrando a expectativa do leitor.

Quando começamos um período da seguinte maneira: "Tanto os países da América do Sul", esperamos que a continuação seja algo do tipo "quanto/ como os...". Isso ocorre porque "tanto... como/ quanto" é uma estrutura correlativa (a primeira parte "chama" a segunda). Se disséssemos, portanto, "Tanto os países da América do Sul e os da América Central", teríamos a quebra do paralelismo sintático, embora, do ponto de vista semântico, não houvesse defeito.

O fragmento selecionado apresenta uma das mais frequentes quebras do paralelismo sintático. O último período organiza-se por meio do par correlativo "não somente... mas também". Ocorre, entretanto, que a primeira parte da estrutura foi interrompida pela forma verbal ("não está somente") e, de quebra, a locução "está redefinindo" também foi interrompida. Uma simples ordenação dos termos resultaria em "Está redefinindo não somente".

Observe que, se o redator optasse por "Não somente está redefinindo", a segunda parte da oração deveria conter outro verbo ("Não somente está redefinindo... mas também está fazendo crescer ...", por exemplo). Como a ideia era dizer que a ascensão Brasil está redefinindo as duas coisas (América Latina e economia do mundo inteiro), a correlação deve vir depois do verbo. Assim:

A ascensão do Brasil como um gigante econômico é um dos maiores temas do nosso tempo. Está redefinindo não somente a América Latina mas também a economia do mundo inteiro.

Se, porventura, a ideia fosse dizer que a ascensão do Brasil está redefinindo a economia da América Latina e a economia do resto do mundo, o ideal seria o seguinte:

A ascensão do Brasil como um gigante econômico é um dos maiores temas do nosso tempo. Está redefinindo a economia não somente da América Latina mas também do mundo inteiro.

Outra opção seria a seguinte:

A ascensão do Brasil como um gigante econômico é um dos maiores temas do nosso tempo. Está redefinindo não somente a economia da América Latina mas também a do mundo inteiro.

OUTRA DICA IMPORTANTE: SEM SUJEITO PRÓPRIO, INFINITIVO NÃO SE FLEXIONA

"Em certa medida, a desincompatibilização é útil aos políticos: permite a eles usarem o poder de forma dissimulada."



Como sempre lembramos, há considerável flutuação nas regras de emprego do infinitivo, flexionado ou não. Um raciocínio que pode ser útil no momento da dúvida é o de que a flexão ocorre para indicar o sujeito - o infinitivo flexionado, também chamado de infinitivo pessoal, recebe apenas a desinência número-pessoal (informação de sujeito).



Dito isso, cumpre observar que há muitas situações em que o infinitivo não tem mesmo sujeito, ou seja, é empregado apenas para indicar a ação em si. O leitor se lembrará de frases como "Navegar é preciso, viver não é preciso", "É proibido fumar" ou "Praticar esportes faz bem à saúde", em que ninguém imaginaria flexionar os infinitivos, dado que as ações não são atribuídas a alguém em particular.



No trecho destacado, embora não pareça à primeira vista, dá-se o mesmo caso. A proximidade do pronome "eles" leva o redator a imaginar que o pronome seja o sujeito do infinitivo - daí a flexão. Observando atentamente a construção, verá que o pronome "eles", antecedido da preposição "a", é o complemento objeto indireto do verbo "permitir" (a desincompatibilização permite algo a alguém), não sujeito do infinitivo.



A oração infinitiva ("usar o poder de forma dissimulada") é o objeto direto do verbo "permitir" - em outras palavras, é aquilo que se permite "a eles". Com uma transposição de voz verbal, obteríamos algo como "Usar o poder de forma dissimulada é permitido a eles pela desincompatibilização". Na voz passiva, fica fácil perceber como o verbo "usar" não tem sujeito próprio.



Outra maneira de desfazer a confusão - e enxergar a estrutura da frase - é substituir o objeto indireto "a eles" pela sua forma equivalente "lhes": "permite-lhes usar o poder...". Dificilmente o redator pensaria em escrever "permite-lhes usarem".







Abaixo, o trecho corrigido:



Em certa medida, a desincompatibilização é útil aos políticos: permite a eles usar o poder de forma dissimulada.













Um comentário:

  1. PEÉÉÉÉÉÉE´SIMO! eu não entendi nada e aposto que ninguem tambem!!

    HORRIIIIIIVEL!! NÃO RECOMENDO DE JEITO NENHUM!

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