sábado, 13 de fevereiro de 2010

A LÍNGUA DE EULÁLIA É A DE TODOS NÓS

              O lingüista e professor da Universidade de Brasília Marcos Bagno apresenta-se como ativista no campo da emancipação através da linguagem. Escritor e tradutor com ampla e qualitativa produção de obras no campo da sociologia da linguagem e do ensino do português, o autor nos oferece com esta obra novas reflexões sobre os fenômenos da linguagem.
              A escolha pela ficção, por isso a “novela sociolingüística”, torna a apresentação dos conceitos lingüísticos perfeitamente entendíveis. As personagens, o tempo, o espaço, o enredo, enfim, a trama narrativa nos envolve de tal forma que nos enxergamos tanto como falante quanto como profissionais da educação. Ali estão nossos preconceitos, dúvidas, medos, alienações, mas também o entendimento do motivo de tanta transgressão na linguagem. Caso os conceitos apresentados em A língua de Eulália estivem sistematizados em compêndios fixamente editados, será que causariam ao leitor tamanha fluidez e identificação? Talvez, não. Bagno presta um grande serviço quando incorpora o prazer da leitura a necessidade e importância conceitual, principalmente porque a sociolingüística possui um aporte teórico vasto e necessita, portanto de exemplos reais do cotidiano da fala.
             As teses apresentadas pelo autor questionam as teses da Nomenclatura Gramatical difundidas na sociedade de forma mais sistemática na escola. O preconceito lingüístico não deixa de ser um preconceito social e vice-versa. Aparentemente, pode-se entender esta máxima como uma maneira simplista de explicar o problema, porém não se trata mais de “fazer vista grossa” aos danos que causam as teorias difundidas por gramáticos e paragramáticos, inclusive pela mídia, como se fossem verdades reveladas. A experiência de Marcos Bagno no campo da lingüística fornece exemplos reais de desconstrução de tais teorias.
Impressiona-nos a tradição educacional em negar a existência de uma pluralidade de normas lingüísticas em relação ao universo existente , negar que a norma padrão também é um tipo de variedade faz das outras, formas desviantes, logo com menos ou sem prestígio. Conhecendo a história da língua nos aspectos mais ligados a sociedade perceberemos que as mudanças fonéticas, morfológicas e semânticas referem-se a dinâmica própria do indivíduo na sociedade. As questões econômicas, geográficas, etárias, de gênero, etc influenciam os diversos tipos de variação. Como podem normas gerais de uma única variação prescrever fundamentos para uma gama de possibilidades do sujeito-falante?
          Somos enviados à escola para aprender a norma culta, pois conhecemos o idioma do país que nascemos desde muito cedo. A comunicação se realiza para o conjunto da população sem necessariamente grandes problemas.Cumpre dizer que a norma não-padrão é regida também pela lógica interna e social na qual os seres humanos estão inseridos. Estas reflexões levam questionar se o fracasso escolar não é também o fracasso DA ESCOLA? Não seria o espaço escolar o lugar da violência simbólica como assinala os intelectuais Pierre Bourdieu e Jean Claude Passeron? A Língua de Eulália perpassa os conceitos misturando explicações diacrônicas e sincrônicas, introduz, inclusive aspectos psicolingüísticos como os afetos na relação linguagem e pensamento. Sabe-se que esta última questão ainda intriga a todos, leigos e cientistas da linguagem.
          Publicações neste campo forçam a reflexão sobre os caminhos do ensino de língua materna sobretudo quanto ao aspecto da formação de professores. Ressente-se no Brasil de um ensino da norma padrão eficaz e que gravíssimos danos esta falta tem causado em relação a escrita e a leitura dos alunos em todos os níveis de ensino. A obra de Bagno integra estudos transdisciplinares no campo da educação e da cultura. Ensinando a não nos contentar com “perplexidades”, tais como “a ruína”, a “corrupção”, a “decadência” da língua portuguesa (pg. 194) . Devemos além de conhecer, pensar a língua. Estar em contato constante com as reflexões do mundo acadêmico, mas também elaborando práticas de ensino que dialoguem de maneira justa e colaborativa com a emancipação humana.
        A democratização do ensino no Brasil ainda é um mito. A expansão quantitativa não foi seguida de qualidade e autonomia pedagógica. Bagno dialoga muito bem com Bourdieu em vários capítulos do livro, pois este fornece aquele respostas no campo da subjetividade, objetivando o conceito de capital cultural, tão necessário ao conceitos científicos da sociolingüística.O conceito de capital cultural insere-se na constatação de que a herança cultural conjugada ao Ethos é o motivo do “sucesso escolar”das crianças e jovens das altas classes sociais e do “fracasso” das crianças e jovens das classes desfavorecidas.O Capital Cultural, ou seja o”habitus”, engloba três estágios: O capital incorporado( investimento de tempo de vida em profunda imersão em gestos, atitudes que promovem a aquisição de saberes); o Capital objetivado (contato com objetos e instituições culturais) e o capital institucionalizado ( certificações, reconhecimento oficiais).Estas etapas se conjugam e formam os mecanismos simbólicos que acrescentam valores (economia de símbolos) que serão os valores reconhecidos pelo espaço escolar como legítimos, isto é, canonicamente aceitos.As condições objetivas irão determinar as escolhas e até mesmo, as idéias de vocação. Os sujeitos são suscetíveis a engendrar tanto uma auto-estima elevada, promovendo, assim, escolhas audaciosas, quando uma baixa auto-estima, o que poderá estimular escolhas que os mantenham nos limites da sua classe de origem.
         O Capital Cultural é determinado pela herança cultural, esta passa a ser considerada “dom natural”, porque será simbolicamente as atitudes e os conhecimentos de uma determinada classe social que possui uma linguagem de prestígio, saberes mitificados e portanto considerados verdadeiros e belos.Sendo assim, a transmissão doméstica do Capital Cultural é considerada mais eficiente pois age sobre indivíduos de maneira a dar a ver, por exemplo, integrando o cosmo psíquico e afetivo.
Segundo, Bourdieu, ao contrário da escola libertadora que compreende o espaço escolar como meio de superação das desigualdades, a instituições, as instituições escolares não apenas estimulam, mas também legitimam as desigualdades.Isto acontece quando a escola trata como iguais os diferentes.Quando se comporta com se não houvesse diferenças e universaliza os métodos acabando por reforçar os mecanismos de exclusão, uma vez que privilegiou um certo tipo de pedagogia. A língua padrão, os métodos de ensino, a escolha curricular, ao invés de serem, aprendidos/compreendidos como necessários a inclusão, são tomados como elementos estratificadores, dificultosos para aqueles que não os dominam.
          A ritologia escolar, nesta a perspectiva, pode ganhar novas significações se os que integram as instituições reconhecerem a validade da escola como propulsora de irradiação do Capital Cultural para o bem comum.Os ritos podem ser instruídos no sentido da construção de espaços alternativos e ricos de possibilidades de empoderamento das classes menos favorecidas.
Temos, então uma obra clara, dinâmica e aberta acerca dos dilemas da linguagem As resistências as idéias de Marcos Bagno situam-se tanto no espaço acadêmico quanto entre profissionais da educação das redes de ensino, todavia, não se pode deixar de respeitar sua produção que se encontra divulgada em vários espaços intelectuais criando polêmicas e mexendo com a letargia geral. Parafraseando o escritor Checherton: “ A aventura pode ser louca, mas o aventureiro tem que ser lúcido.”

Maria da Conceição do Nascimento Gomes








































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