Expor ou argumentar? Tenha em mente a finalidade de sua dissertação
Sueli de Britto Salles
Ao contrário do que muitos pensam, a dissertação não é um texto artificial que se aprende apenas para cumprir com as exigências de vestibulares e outros concursos. Ela é um gênero textual muito presente no cotidiano de qualquer pessoa. Toda vez que analisamos um fato, conceituamos uma ideia, discutimos um assunto ou defendemos nossa opinião, estamos dissertando.
Para realizar tais ações, precisamos refletir sobre o tema em questão, selecionando informações relevantes, a partir de uma pesquisa em nosso acervo mental ou em fontes confiáveis diversas. As ideias selecionadas devem ser organizadas de um modo convincente, em uma estrutura lógica (tese, desenvolvimento, conclusão) e com uma linguagem clara, culta e objetiva. Afinal, dissertar é falar sério, é mostrar nosso jeito racional/ intelectual de interpretar certo assunto. Por isso há um vínculo obrigatório entre a realidade e o conteúdo da dissertação, na medida em que o leitor acredita que o autor desse texto esteja comprometido com a verdade.
A dissertação, que pode ser expositiva ou argumentativa, é o gênero textual mais solicitado em vestibulares porque permite à banca avaliar o candidato a partir de vários critérios, como:
•capacidade de compreensão do tema e da proposta;
•conhecimento da estrutura textual dissertativa;
•domínio da norma culta da língua (já que esta é a esperada para esse tipo de texto);
•nível cultural (necessário para garantir a informatividade do texto);
•habilidade argumentativa, ou seja, de usar as informações selecionadas com o propósito de validar um determinado ponto de vista, tornando o texto convincente. Este item é especialmente importante na dissertação argumentativa.
A principal diferença entre a dissertação expositiva e a argumentativa é facilmente deduzida: a primeira expõe; a segunda argumenta. Cabem, porém, algumas considerações a mais sobre essa distinção:
Dissertação expositiva
É a modalidade textual adequada para tratar de informações tidas como verdades inquestionáveis e tem o objetivo de informar o leitor sobre o máximo de aspectos relevantes ligados ao tema.
Um trabalho escolar sobre o "Acordo Ortográfico", por exemplo, será uma dissertação expositiva se tiver como objetivo expor várias informações sobre o acordo, como os aspectos legais, as principais mudanças ocorridas na língua, os países afetados por essa reforma. Nesse caso, o aluno fará uma pesquisa séria, em fontes seguras e reconhecidas, como livros e revistas científicas. Anotará os dados principais e escreverá um texto organizado numa sequência lógica, em linguagem objetiva, partilhando com o leitor o seu conhecimento sobre o tema.
Quando houver itens polêmicos nesse tipo de trabalho, caberá ao aluno mostrar os dois (ou mais) lados divergentes, evitando revelar seu posicionamento, uma vez que a proposta é expor o máximo de aspectos relevantes que encontrou.
Dissertação argumentativa
Vai além da exposição organizada das informações. Nela o autor apresenta sua visão crítica do tema, ou seja, vê o assunto como algo polêmico, que gera diferentes versões sobre a "verdade" dos fatos.
Se o tema do trabalho sobre o Acordo Ortográfico fosse uma pergunta, como "O Acordo Ortográfico é essencial para o Brasil?", teríamos uma polêmica e, para desenvolvê-lo, precisaríamos escolher um lado, uma tese (sempre sujeita à discordância do leitor), fazendo uma dissertação argumentativa. Poderíamos usar os dados sobre o Acordo Ortográfico citados na dissertação expositiva (aspectos legais, as principais mudanças ocorridas na língua, os países afetados por essa reforma), mas agora enfatizando os pontos que ajudassem na defesa da nossa tese, descartando ou minimizando o peso das informações que não ajudassem nesse propósito.
Só existe argumentação porque há a possibilidade de discordância, assim há alguém para ser convencido, justificando o trabalho de uma argumentação para defender de modo convincente um determinado ponto de vista. Não há imparcialidade na dissertação argumentativa, assim o aluno que não se posiciona, que fica "em cima do muro", seja por insegurança ou por medo de desagradar a banca, comete um grave erro.
Nessa modalidade de dissertação, a maior parte do conteúdo deve destinar-se à apresentação de argumentos favoráveis à tese defendida e só é possível mostrar argumentos contrários se estes forem seguidos de contra-argumentos mais fortes, capazes de derrubar a oposição.
Vale lembrar que é possível usar trechos expositivos na dissertação argumentativa, mas é essencial que o aluno saiba qual é o propósito da sua redação: apenas expor fatos (dissertação expositiva) ou defender um ponto de vista (dissertação argumentativa), pois isso delimitará o que será ou não adequado àquele texto.
Sueli de Britto Salles é mestra em língua portuguesa, leciona em cursos universitários e participa de bancas corretoras de redações em vestibulares.
As estórias que interessam à educação são estimuladoras de novas perfomances para grandes transformações...
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Como você pratica a redação ?
Quais são suas estratégias para escrever uma boa redação?
Muitos estudantes se prendem a diversas regras na hora de escrever redações para o vestibular mas se esquecem de algo fundamental: a escrita. Leitura, conhecimentos de gramática e de atualidades ajudam muito na hora de redigir um texto, mas só o treino é que faz com que o estudante domine as técnicas para poder expressar suas idéias com precisão.
"Podemos comparar a escrita à habilidade de tocar violão: ninguém diz que é um bom instrumentista sabendo só a teoria musical, é necessário ter a prática", explica o professor Eduardo Antonio Lopes, do cursinho Anglo, em São Paulo.
Outro aspecto importante e que deve ser lembrado é o título. Um candidato que teve sua redação escolhida entre as melhores da Fuvest 2009 mandou um recadinho ao corretor, no fim de seu texto. Depois de se esquecer de colocar o título no início da dissertação, o vestibulando optou por ocupar a última linha e se explicou: "desculpe, só vi que precisava no final". Seu texto ganhou o título de: "As fronteiras perdendo poder".
Muitos estudantes se prendem a diversas regras na hora de escrever redações para o vestibular mas se esquecem de algo fundamental: a escrita. Leitura, conhecimentos de gramática e de atualidades ajudam muito na hora de redigir um texto, mas só o treino é que faz com que o estudante domine as técnicas para poder expressar suas idéias com precisão.
"Podemos comparar a escrita à habilidade de tocar violão: ninguém diz que é um bom instrumentista sabendo só a teoria musical, é necessário ter a prática", explica o professor Eduardo Antonio Lopes, do cursinho Anglo, em São Paulo.
Outro aspecto importante e que deve ser lembrado é o título. Um candidato que teve sua redação escolhida entre as melhores da Fuvest 2009 mandou um recadinho ao corretor, no fim de seu texto. Depois de se esquecer de colocar o título no início da dissertação, o vestibulando optou por ocupar a última linha e se explicou: "desculpe, só vi que precisava no final". Seu texto ganhou o título de: "As fronteiras perdendo poder".
13/05/2010 - 08h20
"Repertório" é diferencial nas melhores redações da Fuvest, dizem professores
Ana Okada
"Repertório" é diferencial nas melhores redações da Fuvest, dizem professores
Ana Okada
Em São PauloDe acordo com professores ouvidos pelo UOL Vestibular, o repertório dos candidatos foi um importante diferencial apresentado nas melhores redações da Fuvest 2010, pois compõe a chamada "marca de autoria". Esse recurso, de acordo com a professora Maria Aparecida Custódio, do cursinho Objetivo, é muito valorizado pelos corretores da Fuvest.
Ela conta que o vestibular procura não só textos que sejam bem escritos, mas que reflitam, na linguagem usada, o pensamento do estudante. "Você vê que o candidato não coloca a citação ali só para impressionar a banca. É tudo bem contextualizado", diz. "O estudante busca, no repertório dele, argumentos para embasar a redação, usando citações de livros, filmes etc. Isso enriquece a análise", explica Maria Aparecida.
O professor Eduardo Antonio Lopes, do cursinho Anglo, diz que os textos se destacaram, principalmente, por dois pontos: o bom emprego do português culto e o repertório apresentado, que é reflexo da formação cultural do estudante. Para ele, a principal lição que se pode tirar das melhores redações da Fuvest é a de que "não há receita de redação", dada a diversidade de modelos apresentados.
"Isso ataca o mito de que haja uma forma para executar uma redação. Não é como um exercício de matemática, que você tem etapas a serem seguidas numa certa ordem. Você vê que há redações que se aproximam desse modelo e há outras que se afastam bastante disso", salienta. "É importante que cada um procure seu estilo pessoal, seja pelo bom domínio da língua, seja pela boa exploração dos argumentos. Os textos foram escolhidos porque mostram muitas perspectivas que o candidato pode explorar", diz Lopes.
Intertextualidade
Os professores também chamam a atenção para a intertextualidade das redações. "Tem gente que continua achando que as matérias são compartimentadas. A redação é a chance de usar todas as disciplinas, e elas são muito úteis para enriquecer uma redação", diz Maria Aparecida.
"Se tem uma questão interdisciplinar é a redação", diz o professor Lopes. "A escrita reflete toda a formação do indivíduo e o repertório cultural da vida dele; isso não é tarefa só do professor de português, mas da família e de todos os professores de todas as disciplinas", diz.
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